Ela acorda cedo, cumpre suas obrigações, trabalha, cuida da casa, acompanha os filhos. À noite, quando finalmente se recolhe, abre o celular. Começa a assistir a um episódio de série, depois outro. Ou então mergulha num romance açucarado, num dorama que a transporta para longe de sua realidade. Acompanha influenciadoras que mostram vidas perfeitas, rotinas impecáveis, casamentos de conto de fadas.

À primeira vista, nada disso é problemático. Até a mulher começar a se comparar e se lamentar frequentemente por algo que não existe. E, aos poucos, sem perceber, passa a medir sua própria vida por essa régua de ilusões. Sente-se insuficiente, cansada, vazia. O entretenimento que deveria ser descanso torna-se um vício que a afasta de si mesma, de sua família e de Deus.

Este retrato descreve, infelizmente, um número considerável de mulheres cristãs em nossos dias.

O que está por trás desse vazio interior que tantas mulheres tentam preencher com distrações? Por que a vocação feminina parece ter perdido seu sentido? Como a mulher católica pode viver sua identidade num mundo que a todo momento lhe oferece modelos contrários à fé? E onde encontrar forças para resistir quando o cansaço aperta e a solidão bate à porta?

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Este artigo busca responder a essas perguntas à luz de três pensadoras católicas que dedicaram suas vidas a compreender o mistério da feminilidade. Edith Stein, filósofa e mártir carmelita, que refletiu sobre a missão da mulher segundo a natureza e a graça. Gertrud von le Fort, escritora alemã que, convertida ao catolicismo, meditou sobre o significado eterno do feminino. E, Alice von Hildebrand, filósofa belga, que defendeu o privilégio de ser mulher contra as distorções do secularismo.

Com o auxílio dessas autoras, examinaremos primeiro as causas do atual vazio interior feminino, depois os dons próprios da natureza da mulher e as armadilhas que os ameaçam, em seguida o que significa nadar contra a corrente amparada pela Igreja, e por fim os atributos de Maria que toda mulher católica pode cultivar de modo concreto.

O vazio interior e suas falsas soluções

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Edith Stein, em A Mulher — sua missão segundo a natureza e a graça, já identificava em sua época um perfil feminino preocupante. Ela descreve mulheres superficiais e desvalidas que correm atrás do prazer para preencher o vazio interior, que contraem e desfazem casamentos, que deixam a casa e os filhos entregues a si mesmos. Dessas mulheres, observa a santa, "não se pode falar nem em vocação nem em Ethos. São como areia ao vento". A destruição da vida familiar e a decadência moral têm a ver, essencialmente, com o predomínio desse perfil, e o seu número só diminuirá por meio de uma educação adequada das jovens. Alice von Hildebrand, em “O Privilégio de Ser Mulher”, diagnostica a raiz desse mal.

Ao afirmar que vivemos num mundo tão mergulhado no secularismo, diz que muitos sequer percebem sua influência.

Há cristãos devotos que se sentiriam ofendidos se acusados de contaminação pelo espírito dos tempos e que, contudo, em certas situações concretas, revelam que a fumaça de uma ideologia moderna que já lhes penetrou o espírito.

Essa fumaça se manifesta de muitas formas, seja na busca incessante por entretenimento, na incapacidade de silêncio, na necessidade de aprovação externa ou até na comparação constante com a vida alheia. Gertrud von le Fort, em “A Mulher Eterna”, bem observava que "os romances e dramas da época baseados na vida conjugal se fazem ver sob uma luz bastante duvidosa", pois a arte que devassa a intimidade do casamento viola "os limites do silêncio, o qual pertence à realidade íntima das coisas". O mesmo vale para as narrativas que consumimos hoje: séries, novelas e romances que expõem, banalizam e distorcem aquilo que deveria ser guardado no recato do coração.

A Mulher Eterna

A natureza feminina e a armadilha do feminismo

1929

A mulher foi criada por Deus com dons específicos que a capacitam para sua missão. Edith Stein observa que o corpo e a alma femininos se prestam menos à luta e à conquista e mais à prática de cuidar, guardar e conservar. A mulher possui uma percepção especial da importância do todo, dos valores específicos e do individual. Ela é sensível e atenta a tudo que quer vir a ser, crescer e desenvolver-se. Esses dons, quando bem empregados, fazem dela o coração do lar e uma força de transformação na sociedade.

Contra essa natureza, porém, ergue-se o feminismo. Alice von Hildebrand considera as feministas o pior inimigo das mulheres, pois fracassam na tentativa de torná-las iguais aos homens e colocam em risco a sublime missão que lhes foi confiada.

A filósofa recorda que o cardeal Joseph Ratzinger via no feminismo uma das maiores ameaças à Igreja, cuja origem está na perda do sentido do sobrenatural. O secularismo também corrompeu a noção de serviço, apresentando-o como algo degradante. Ora, Cristo mesmo disse que não veio para ser servido, mas para servir (Mt 20, 28). A cristã que considera o serviço humilhante afasta-se daquilo que o próprio Deus assumiu como missão.

Maria, ideal de mulher

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A mulher católica que deseja viver sua vocação sabe que terá de nadar contra a corrente. O mundo zombará de suas escolhas, questionará suas prioridades, tentará convencê-la de que está perdendo tempo. Ela será tentada pelo cansaço, pela solidão, pela sensação de ser a única a pensar diferente. Nessas horas, precisa recordar que está amparada pela Igreja, Corpo Místico de Cristo, e que caminha na companhia dos santos que a precederam.

Edith Stein oferece uma palavra de esperança ao afirmar que, apesar da imagem triste da média das mulheres, encontramos em todos os âmbitos da vida verdadeiras heroínas que realizam feitos admiráveis. São mães que irradiam calor e luz no lar, que criam os filhos transmitindo-lhes bênçãos para gerações futuras e que ainda conservam o coração aberto para as necessidades dos outros. São religiosas que, em suas orações noturnas, lutam pelas almas e oferecem seus sacrifícios pelos pecadores. O heroísmo feminino é possível, e a história da Igreja está repleta de seus testemunhos.

E o modelo supremo para a mulher católica é a Virgem Maria.

Alice von Hildebrand recorda que é no Novo Testamento que se manifesta a glória da missão feminina, na pessoa da Santa Virgem de Nazaré, que aceitou ser a mãe do Redentor, permanecendo virgem. Em Maria, contemplamos atributos que toda mulher cristã pode cultivar, e três deles merecem atenção especial por sua aplicação concreta na vida de hoje.


O primeiro é a humildade. Maria disse "sim" ao plano de Deus sem exigir explicações nem negociar condições. A mulher católica pode cultivar essa virtude reconhecendo diariamente sua dependência de Deus na oração matinal, pedindo perdão por seus erros no exame de consciência, aceitando correções com mansidão e evitando a vaidade.

O segundo é o silêncio contemplativo. O Evangelho diz que Maria guardava todas as coisas, meditando-as em seu coração (Lc 2, 19). A mulher católica precisa cultivar momentos de silêncio. Isso significa, de modo prático, desligar as telas por períodos determinados, reservar tempo para a leitura espiritual, frequentar a adoração eucarística e rezar o terço com atenção. O silêncio é o solo onde Deus planta Suas sementes.

O terceiro é a fortaleza na provação. Maria permaneceu de pé junto à Cruz quando todos haviam fugido (Jo 19, 25). Sua força não era a do orgulho, mas a da fidelidade. A mulher católica encontra essa fortaleza na vida sacramental, na confissão frequente que purifica a alma, na comunhão dominical que alimenta, no terço rezado em família que une. São esses os meios que Cristo deixou para não desfalecermos no caminho.

A mulher católica que fixa os olhos em Maria e caminha na companhia da Igreja descobrirá que sua vocação, longe de ser um fardo, é um privilégio.