O Papa Leão XIV publicou a sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Desde então, os trechos sobre a IA têm despertado um interesse fora do comum, e com toda a razão, porque o tema toca o futuro do trabalho, da verdade e da própria convivência entre os povos. Esses parágrafos já circulam por toda parte e merecem o debate que estão recebendo.
O documento, porém, é bem mais largo do que esse recorte. Quem o lê de ponta a ponta percebe que a inteligência artificial funciona como a porta de entrada para uma reflexão que recolhe vinte séculos de pensamento cristão e, por isso, reunimos aqui o que mais nos chamou a atenção para além das máquinas.

Duas imagens antes de qualquer tecnologia
Antes de falar de algoritmos, Leão XIV propõe duas cenas da Escritura. A primeira é a torre de Babel, erguida por uma humanidade que sonha alcançar o céu pela própria força, com uma só língua e uma só técnica, e que termina dispersa, incapaz de se entender. A segunda é a reconstrução das muralhas de Jerusalém no livro de Neemias, obra que renasce quando cada família assume a sua parte e todo o povo reconhece que a sua força vem de Deus.
O Papa lê o nosso tempo à luz desse contraste e reflete como a respnsabilidade diante de qualquer progresso recai sobre o amor que orienta quem constrói e quem utiliza a ferramenta e por isso ele retoma Santo Agostinho e a imagem das duas cidades, edificadas por dois amores, o amor de Deus e o amor voltado apenas para si mesmo. A escolha entre erguer Babel ou reconstruir Jerusalém, observa o Pontífice, começa dentro do coração de cada um de nós.
Uma tradição viva que completa 135 anos

A encíclica nasce de uma data especial, pois em 2026 celebram-se os 135 anos da Rerum Novarum, de Leão XIII, o texto que inaugurou aquilo que hoje chamamos Doutrina Social da Igreja.
E sabemos que Leão XIV se coloca dentro dessa linhagem e a descreve como um patrimônio vivo, feito de princípios para pensar, critérios para discernir e orientações para agir. A escolha do próprio nome já anuncia o programa!
Ao adotar o nome "Leão", o Papa sinaliza que pretende fazer pela era digital algo semelhante ao que o seu predecessor fez diante da revolução industrial, oferecendo ao mundo do trabalho e da técnica uma palavra enraizada no Evangelho. A inteligência artificial aparece, assim, como a nova questão social do nosso século.
De Agostinho a Tolkien, as vozes que sustentam o texto
Um dos aspectos mais ricos do documento está na variedade de interlocutores que o Papa convoca. Ao lado da Escritura e do Concílio Vaticano II, surgem Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, e também pensadores do século XX como Romano Guardini, Hannah Arendt e Viktor Frankl, este lembrado pela experiência de Auschwitz e pela busca de sentido em meio ao sofrimento.
A presença que mais surpreende muito o leitor é a de J.R.R. Tolkien. Leão XIV o apresenta como um escritor católico do século XX e recorre a uma passagem de O Senhor dos Anéis para descrever a medida da nossa responsabilidade, onde pela voz de um personagem, Tolkien ensina que a nossa tarefa se limita a cuidar do tempo e do campo que nos foram confiados, arrancando o mal que está ao nosso alcance para que as gerações seguintes herdem uma terra limpa. Sabe-se que governar todas as marés do mundo escapa às nossas mãos, e o Papa colhe nessa humildade a chave da civilização do amor, aquela que se constrói com gestos pequenos e fiéis, a começar pelo modo como tratamos as palavras e as pessoas ao nosso redor.
Por fim, vê-se que o Santo Pontífice resiste à promessa de uma técnica capaz de nos livrar de toda fragilidade, pois aceitar os próprios limites faz parte da verdadeira grandeza humana, e o nosso desenvolvimento se dá no cuidado recíproco e na solidariedade, onde o progresso se mede pela dignidade de cada pessoa e pelo bem dos povos.
Aprendemos também que o título da Encíclica guarda a síntese de tudo! Magnifica Humanitas ecoa o Magnificat de Maria, o cântico em que a alma engrandece o Senhor. A humanidade se torna magnífica quando reconhece que a sua força vem de Deus e que a vida é um dom recebido antes de ser uma conquista e é essa a esperança que o Papa deixa para um tempo de máquinas, e talvez seja a página que mais precisamos guardar.

