O Papa Leão XIV publicou a sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Desde então, os trechos sobre a IA têm despertado um interesse fora do comum, e com toda a razão, porque o tema toca o futuro do trabalho, da verdade e da própria convivência entre os povos. Esses parágrafos já circulam por toda parte e merecem o debate que estão recebendo.

O documento, porém, é bem mais largo do que esse recorte. Quem o lê de ponta a ponta percebe que a inteligência artificial funciona como a porta de entrada para uma reflexão que recolhe vinte séculos de pensamento cristão e, por isso, reunimos aqui o que mais nos chamou a atenção para além das máquinas. La Tour de Babel, Van Valckenborch, 1594 (1)

Duas imagens antes de qualquer tecnologia

Antes de falar de algoritmos, Leão XIV propõe duas cenas da Escritura. A primeira é a torre de Babel, erguida por uma humanidade que sonha alcançar o céu pela própria força, com uma só língua e uma só técnica, e que termina dispersa, incapaz de se entender. A segunda é a reconstrução das muralhas de Jerusalém no livro de Neemias, obra que renasce quando cada família assume a sua parte e todo o povo reconhece que a sua força vem de Deus.

O Papa lê o nosso tempo à luz desse contraste e reflete como a respnsabilidade diante de qualquer progresso recai sobre o amor que orienta quem constrói e quem utiliza a ferramenta e por isso ele retoma Santo Agostinho e a imagem das duas cidades, edificadas por dois amores, o amor de Deus e o amor voltado apenas para si mesmo. A escolha entre erguer Babel ou reconstruir Jerusalém, observa o Pontífice, começa dentro do coração de cada um de nós.

Uma tradição viva que completa 135 anos

Caravaggio   The Incredulity of Saint Thomas

A encíclica nasce de uma data especial, pois em 2026 celebram-se os 135 anos da Rerum Novarum, de Leão XIII, o texto que inaugurou aquilo que hoje chamamos Doutrina Social da Igreja.

E sabemos que Leão XIV se coloca dentro dessa linhagem e a descreve como um patrimônio vivo, feito de princípios para pensar, critérios para discernir e orientações para agir. A escolha do próprio nome já anuncia o programa!

Ao adotar o nome "Leão", o Papa sinaliza que pretende fazer pela era digital algo semelhante ao que o seu predecessor fez diante da revolução industrial, oferecendo ao mundo do trabalho e da técnica uma palavra enraizada no Evangelho. A inteligência artificial aparece, assim, como a nova questão social do nosso século.

De Agostinho a Tolkien, as vozes que sustentam o texto

Um dos aspectos mais ricos do documento está na variedade de interlocutores que o Papa convoca. Ao lado da Escritura e do Concílio Vaticano II, surgem Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, e também pensadores do século XX como Romano Guardini, Hannah Arendt e Viktor Frankl, este lembrado pela experiência de Auschwitz e pela busca de sentido em meio ao sofrimento.

A presença que mais surpreende muito o leitor é a de J.R.R. Tolkien. Leão XIV o apresenta como um escritor católico do século XX e recorre a uma passagem de O Senhor dos Anéis para descrever a medida da nossa responsabilidade, onde pela voz de um personagem, Tolkien ensina que a nossa tarefa se limita a cuidar do tempo e do campo que nos foram confiados, arrancando o mal que está ao nosso alcance para que as gerações seguintes herdem uma terra limpa. Sabe-se que governar todas as marés do mundo escapa às nossas mãos, e o Papa colhe nessa humildade a chave da civilização do amor, aquela que se constrói com gestos pequenos e fiéis, a começar pelo modo como tratamos as palavras e as pessoas ao nosso redor.

Por fim, vê-se que o Santo Pontífice resiste à promessa de uma técnica capaz de nos livrar de toda fragilidade, pois aceitar os próprios limites faz parte da verdadeira grandeza humana, e o nosso desenvolvimento se dá no cuidado recíproco e na solidariedade, onde o progresso se mede pela dignidade de cada pessoa e pelo bem dos povos.

Aprendemos também que o título da Encíclica guarda a síntese de tudo! Magnifica Humanitas ecoa o Magnificat de Maria, o cântico em que a alma engrandece o Senhor. A humanidade se torna magnífica quando reconhece que a sua força vem de Deus e que a vida é um dom recebido antes de ser uma conquista e é essa a esperança que o Papa deixa para um tempo de máquinas, e talvez seja a página que mais precisamos guardar.