Nos últimos anos, um fenômeno tem chamado a atenção de quem observa a vida da Igreja no Ocidente: entre os jovens da chamada Geração Z, o número de batismos e conversões tem crescido de forma considerável. Na França, o número de batismos de jovens entre 18 e 25 anos quadruplicou em quatro anos, e esse crescimento encontra raízes, em grande parte, no âmbito digital.

Uma pesquisa realizada pelos meios de comunicação católicos Famille Chrétienne e Aleteia, com 900 catecúmenos franceses, revelou que 78% deles reconhecem que as mídias sociais tiveram um papel na descoberta ou no amadurecimento de sua Fé, e 84% afirmaram seguir criadores de conteúdo cristãos. O interesse pela vida cristã, portanto, tem encontrado caminhos que, há duas décadas, seriam difíceis de prever.

Ao mesmo tempo em que esse movimento se manifesta, não se pode ignorar que a Fé católica tem sido combatida por várias frentes ao longo das últimas décadas. O fenômeno da secularização, que avança de modo constante desde o século passado, produziu nas sociedades ocidentais uma mentalidade em que a Religião é tratada como algo dispensável — uma escolha pessoal entre tantas outras, e não como a resposta à pergunta mais fundamental que o homem pode fazer sobre si mesmo e sobre o sentido de sua existência.

Essa mentalidade se alimenta de forças que atuam em conjunto, como a perda da Esperança como Virtude vivida, a difusão de um materialismo que reduz a vida humana às suas dimensões econômicas e biológicas, e o crescimento de um individualismo que faz do homem a medida de todas as coisas. Cada uma dessas forças, a seu modo, contribui para afastar as almas da Fé, apresentando-a como algo que não responde às necessidades concretas da vida, quando, na Verdade, é a Fé que dá a essas necessidades o seu significado.

O que se observa, portanto, é uma tensão própria do nosso tempo, no qual de um lado, almas que buscam a Deus encontram na Igreja a resposta que o mundo não lhes ofereceu; de outro, uma cultura que trabalha para tornar essa busca mais difícil e até mais incompreendida.


Como mencionado anteriormente, essa tensão não é nova na história da Igreja, acompanha o Corpo Místico de Cristo desde a sua fundação, mas assume, nos dias de hoje, formas que exigem do católico uma consciência clara do que professa e do modo como vive aquilo que professa.

Diante desse cenário nos perguntamos: o que significa viver a Fé católica nos dias de hoje?

Nesse texto, visamos compreender o que a Fé pede de quem a recebeu — como ela se traduz nas escolhas do dia a dia, no modo de conduzir as relações, de enfrentar as dificuldades, de ordenar a vida interior e exterior segundo aquilo que Cristo ensinou e a Igreja transmite.

Para responder a essa pergunta, apoiamo-nos no A.-D. Sertillanges, que se debruça, na obra A Vida Católica, recém-lançada pela Editora Ecclesiae, sobre os aspectos concretos da vida de Fé.

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Os tópicos que se seguem tomam como guia essa reflexão para oferecer pontos de atenção a todo católico que, em meio às circunstâncias do nosso tempo, deseja viver a sua Fé com coerência e fidelidade.

Família e oração

Aquele que é nossa vida e nosso guia

A vida católica encontra em Cristo o seu princípio, o seu modelo e, na medida em que Cristo contém Deus, o objeto final de toda a sua busca. Essa afirmação, que Sertillanges coloca logo nas primeiras páginas de “A Vida Católica”, diz respeito ao modo como cada fiel conduz as suas horas, as suas decisões e os seus afetos. Se Cristo é o princípio da vida católica, então nenhum aspecto dessa vida — por mais cotidiano que pareça — escapa à Sua influência.

Para compreender melhor o que se acredita, é impossível não discorrer sobre o Mistério da Encarnação.

Ao assumir a natureza humana sem abandonar a natureza divina, o Filho de Deus uniu em Si o visível e o invisível, o terreno e o celeste, o que muda e o que permanece. A vida católica reflete essa união: ela não se reduz ao que é visível — os ritos, os gestos, as práticas externas —, nem se dissolve no que é invisível — a pura interioridade sem forma nem expressão. Ela habita a tensão entre os dois, porque é nessa tensão que o católico vive de fato, com os pés no tempo e o coração voltado para a Eternidade.

O vazio deixado pelo pecado original, que o homem por si só não poderia preencher, foi preenchido por Deus, que nele Se introduziu pela Encarnação. A criação, sob essa luz, revela-se como uma ascensão, e o Criador vem ao encontro da criatura para conduzi-la de volta à fonte de toda vida. Eis o fundamento de tudo o que o católico vive e pratica. A certeza de que o caminho de volta a Deus foi aberto não pelo esforço humano, mas pela iniciativa divina.

Sertillanges observa que a vida católica é:

“ação, manifestação, exteriorização, como toda vida que se desenvolve a partir de um princípio; mas também como toda vida, a vida católica esconde seu princípio nos mistérios de uma interioridade que não se revela senão depois, pela ação exterior”.

O católico que reza, que frequenta os Sacramentos, que pratica a Caridade, exterioriza algo que nasce primeiro no silêncio da alma, na união com Cristo. Quem observa de fora vê os gestos e quem os pratica sabe que eles procedem de uma realidade interior que os sustenta e lhes dá sentido.

Na vida concreta, isso significa que Cristo não é uma referência distante a quem o católico recorre em momentos de dificuldade, mas Aquele que estrutura cada dimensão da existência. Ele é a luz que ilumina o conhecimento, a força que sustenta o impulso da vontade, o amor que move os afetos, o caminho pelo qual se avança.

Há, contudo, a Cruz, uma dimensão da vida católica que o mundo contemporâneo tende a rejeitar ou a minimizar.

Cristo sofreu e morreu, e quem deseja unir-se a Ele para a Vida Eterna precisa encontrá-Lo onde Ele Se encontra — e Ele Se encontra também no sofrimento. O fato de que Cristo suportou a Cruz por nós não nos dispensa de carregá-la; pelo contrário, o Seu sacrifício deu à cruz de cada um de nós um valor que, sem Ele, ela jamais teria.

Numa cultura que faz do conforto e da ausência de sofrimento os critérios máximos de uma vida bem vivida, essa Verdade soa como escândalo, mas é nela que o católico encontra o sentido das provações que enfrenta.

Um exemplo: Vida e trabalho

Vida e Trabalho

Na cultura contemporânea, o trabalho ocupa um lugar que ultrapassa a sua função natural. Ele deixou de ser o meio pelo qual o homem provê o sustento e colabora com a obra da Criação para se tornar, em muitos casos, o centro em torno do qual toda a existência gira. A lógica da produtividade — que mede o valor de uma pessoa pelo que ela produz e pela velocidade com que produz — moldou o modo como se encaram as horas do dia, as relações e até o descanso, que passa a ser visto como um intervalo funcional para que se possa produzir mais. Para o católico, essa lógica exige discernimento, porque ela parte de premissas que nem sempre se conciliam com a Verdade sobre o homem e sobre o sentido do seu trabalho.

A Teologia católica não separa o trabalho da contemplação como se fossem atividades opostas. Existe uma continuidade entre a ocupação que consideramos a mais elevada — a contemplação da Verdade Eterna — e o mais simples dos trabalhos manuais. Ambos procedem da alma e a prolongam: a contemplação, pelo exercício da inteligência voltada ao que é imaterial, e o trabalho, pela aplicação da inteligência à matéria, que se submete à ideia, recebe dela uma forma e um sentido. O operário que molda a madeira, a mãe que organiza o lar, o lavrador que cultiva a terra — todos eles, quando trabalham com retidão, exercem uma atividade que participa, à sua medida, da ação criadora de Deus.

E, claro, todo trabalho é, em alguma medida, penoso, podendo exigir paciência, repetição e a disposição de enfrentar a resistência que a realidade oferece a quem tenta transformá-la.

A cultura da produtividade trata esse aspecto como um problema a ser resolvido por métodos de otimização e eficiência, mas a Tradição católica o reconhece como parte da condição humana após a Queda — e mais do que isso, como uma ocasião de unir-se ao Sacrifício de Cristo. Segundo Sertillanges, o católico que suporta a fadiga do seu ofício com consciência de Fé transforma aquilo que o mundo considera um fardo em uma oferenda.

Isso não significa que o católico deva trabalhar sem descanso ou aceitar sem critério toda exigência que lhe é imposta em nome da produtividade. O Domingo, dia do Senhor, existe para lembrar ao homem que ele não foi feito para produzir, mas para conhecer, amar e servir a Deus. Quando o trabalho invade o tempo que pertence à oração, à família e ao recolhimento, passa a competir com aquilo que deveria servir. O católico, portanto, trabalha com empenho e seriedade, mas sabe que o seu trabalho encontra o seu lugar dentro de uma ordem que o ultrapassa — e é essa ordem, e não a lógica do rendimento, que determina o valor e o limite de cada esforço.

O que se faz na vida cotidiana importa!

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A vida católica também se mede pelos seus momentos ordinários, pelo modo como o fiel conduz as horas comuns do dia. O que se passa no silêncio da vida ordinária, longe dos olhos do mundo, possui aos olhos de Deus um valor que os gestos visíveis nem sempre alcançam. Fazendo assim, os seguintes atos:

  • Levantar-se pela manhã com disposição e sem capricho, na hora devida, por nenhuma outra razão que não seja corresponder ao chamado de Deus para viver mais um dia;

  • Dedicar-se ao trabalho sob o Seu olhar;

  • Ser paciente quando a paciência custa, prudente nas palavras quando o impulso convida à imprudência, justo numa avaliação quando a parcialidade seria mais cômoda;

Sertillanges sustenta que esses atos, por sua aparente pequenez, constituem prova de união com Deus mais eloquente do que gestos de generosidade visível ou resistências forçadas a grandes tentações. A humildade dos atos é, segundo ele, o tema preferido do amor divino, pois neles “Deus Se compraz” como na demonstração de que a Sua Graça é capaz de tornar grande o que parece insignificante.

Essa perspectiva tem consequências diretas para o modo como o católico se relaciona consigo mesmo e com o próximo.

Há pessoas marcadas por heranças e circunstâncias que não escolheram, temperamentos difíceis, inclinações penosas, fragilidades que não procedem de uma escolha deliberada. Diante dessas situações, a consciência católica distingue entre o que foi escolhido e o que foi recebido como condição.

O que não foi escolhido não pode ser imputado como culpa, e o próximo — isto é, todos nós — deve abster-se de condenar aquilo que é ponto de partida da vida de alguém, e não obra da sua vontade.

Ao aceitar a ordem dos deveres que a Fé estabelece, o católico protege a sua vida de um mal que a cultura contemporânea conhece bem, mas para o qual não encontra remédio. A desordem interior que nasce de se viver sem hierarquia de valores não deve ganhar força.

Sertillanges, assim, reconhece que quando a vida se ordena segundo a Verdade, uma calma se infiltra mesmo nos momentos de dificuldade — pode haver melancolia, observa ele, mas não infelicidade. A infelicidade, no sentido que ele lhe dá, é a existência que fracassou no seu propósito, ao passo que a felicidade é a existência que se realizou conforme o fim para o qual foi criada.

Entre os arranjos humanos que sustentam essa vida ordenada, Sertillanges destaca a família unida, devotada aos seus deveres e cristã. Em um período em que os vínculos familiares se fragilizam sob a pressão das exigências individuais e da lógica de que cada um deve buscar a própria realização antes de tudo, essa questão nos diz e muito.

A vida católica não se vive de forma isolada. A família é o primeiro lugar onde a Fé se transmite, onde a paciência se exercita de fato, onde a caridade deixa de ser um conceito e se torna um gesto repetido, dia após dia, diante das mesmas pessoas e das mesmas dificuldades.

A Caridade sobrenatural, por fim, é sabedoria por si só. Ao ligar o homem a Deus e ao que é de Deus, ela estabelece a hierarquia de valores que orienta os julgamentos e, por consequência, as escolhas e as satisfações de cada dia. Pense onde essa hierarquia está firmada! Não há impulso capaz de separar o coração daquilo que ele aceitou como único e essencial. São Paulo exprimiu essa certeza ao declarar que nem a morte, nem a vida, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem criatura alguma poderá nos separar do Amor de Deus que está em Cristo Jesus, Nosso Senhor (cf. 8:38-39). É nessa certeza que o católico encontra a razão última para cuidar de cada ato, por menor que seja, da sua vida cotidiana — pois cada um deles é uma ocasião de permanecer nesse Amor ou de se afastar dele.