Há uma pergunta que a tradição cristã pouco formula nesses termos, mas que atravessa as grandes meditações sobre a Paixão: o que se passava no interior de Cristo enquanto Ele morria?
Aqui não visamos nos referir ao que era visível aos outros, nem do que a multidão dizia, do que os soldados executavam ou do que os discípulos, dispersos e tomados pelo medo, conseguiam compreender. A questão se dirige ao próprio Cristo: o que se apresentava ao Seu olhar, o que estava diante d’Ele e o que preenchia o Seu interior naquelas horas.
A fé cristã permite essa consideração porque afirma que Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ofereceu a própria vida de modo livre e consciente pela redenção do mundo.
Se assim foi, então o olhar elevado da Cruz não pode ser entendido como um olhar esvaziado pelo sofrimento, mas como um olhar no qual o sofrimento e o sentido se encontram sem contradição.
Esta meditação se organiza em quatro aspectos: aquilo que se colocava diante de Seus olhos, o alcance de Sua consciência, o modo como o amor se dirigia às pessoas presentes e, por fim, o que a Cruz revela sobre a condição humana.

O Gólgota (calvário) como ponto de visão
A Cruz foi erguida em um ponto elevado, e esse dado possui implicações que ultrapassam a descrição física.
Dessa posição, o olhar de Cristo alcançava Jerusalém, com o Templo, as muralhas e as ruas pelas quais havia passado ao longo de Sua vida pública. Também se estendia até o Monte das Oliveiras, onde havia rezado na noite anterior, e incluía a multidão que dias antes O recebera e que agora, ao menos em parte, participava da rejeição.

Havia, portanto, uma realidade concreta diante de Seus olhos, mas não apenas isso. A memória reunia rostos, acontecimentos e histórias que não se reduziam ao instante presente. A mulher que tocara Suas vestes, o cego que passara a ver, Lázaro chamado para fora do túmulo, e Pedro, que naquela mesma madrugada O negara, compunham um campo de presença que não dependia da proximidade física.
Esse olhar não se limitava ao que era imediatamente visível. À luz da fé da Igreja, ele se estendia à totalidade daqueles por quem o sacrifício era oferecido. Não se tratava de uma visão interrompida pelo sofrimento, mas de uma visão na qual o sofrimento estava integrado a um sentido que o ultrapassa.
A consciência de Cristo na Paixão
A teologia católica sustenta, com base na doutrina e na reflexão dos doutores da Igreja, que Cristo possuía consciência de Sua identidade e de Sua missão ao longo de Sua vida terrena. Essa afirmação não reduz a realidade do sofrimento nem o transforma em aparência, mas indica que ele foi assumido de modo livre e com pleno conhecimento do que estava em jogo.
“Ninguém tira a minha vida; sou Eu que a dou” (Jo 10,18).
Essa declaração, anterior à Paixão, orienta a compreensão do que se realiza no Calvário. Cristo não se encontra submetido aos acontecimentos como alguém arrastado por forças externas, mas age como aquele que oferece a própria vida. A tradição O reconhece como sacerdote e vítima no mesmo ato, em uma entrega que corresponde inteiramente à vontade do Pai.
Essa perspectiva altera o modo de considerar a Cruz. O sofrimento permanece em sua realidade histórica, sem atenuações, mas passa a ser compreendido dentro de um horizonte que o insere em um ato consciente de entrega. Uma dimensão da oferta consciente, livre e amorosa.
A agonia transmitida era conhecimento pleno de tudo que estava sendo carregado. O que se manifesta ali envolve a consciência do peso que é carregado e da extensão do que está sendo oferecido. A Paixão, assim, é um ato no qual a entrega se realiza com conhecimento e intenção.

O que o amor via em cada pessoa
Se Cristo oferecia a Sua vida por amor, então o Seu olhar do alto da Cruz era, antes de tudo, um olhar de amor. Um amor que não idealizava, que via o pecado, a traição, a covardia, a violência, e que mesmo assim não se retirava.
Havia, sob aquele olhar, os que O crucificavam. E a tradição registra que Cristo pediu perdão ao Pai por eles:
"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23,34).
Havia, sob aquele olhar, Sua Mãe. João registra o momento em que Jesus a vê, vê o discípulo amado ao lado dela, e confia um ao outro. Naquele gesto, a tradição reconhece a entrega de Maria como Mãe de todos os que creem.
Havia, sob aquele olhar, o bom ladrão. O homem que, crucificado ao lado d'Ele, encontrou coragem para pedir: "Lembra-te de mim quando entrares no Teu reino" (Lc 23,42). E recebeu, como resposta, a promessa mais direta que Cristo pronunciou a qualquer ser humano durante toda a Sua vida pública: "Hoje estarás comigo no paraíso."
O olhar que parte da Cruz alcança pessoas em sua singularidade, com suas histórias e condições próprias. É nesse nível que a oferta se realiza como uma relação que envolve cada um de modo particular.
O que a Cruz revela sobre o homem
A meditação da Paixão não se limita à contemplação de Deus, pois nela também se manifesta uma compreensão sobre o próprio homem. Aquilo que se apresenta na Cruz expõe modos distintos de resposta diante do mistério que ali se realiza.
Nesse cenário, aparecem a violência dos que executam, o recuo dos que se afastam, a permanência daqueles que não abandonam, a mudança daquele que, mesmo condenado, ainda se volta para Cristo, além da hesitação e do medo que impedem uma posição mais firme.
Quem se detém sobre a Paixão com atenção reconhece nesses personagens traços que não lhe são estranhos. Essa identificação inclui também atitudes de negação, de omissão e de escolha condicionada pelas circunstâncias.
Por essa razão, a contemplação da Cruz se configura como um confronto com a Verdade. Quando a verdade é assumida sem desvios, ela produz efeito sobre a maneira como o homem compreende a si mesmo.

A Cruz revela, ainda, que o sofrimento humano não é um acidente na história da salvação. É o lugar onde Deus escolheu habitar de forma mais radical. Quem aprende a contemplar a Paixão aprende, por consequência, a olhar para o próprio sofrimento como possibilidade de união.
O que Cristo via do alto da Cruz era, entre tudo, o mundo que Ele amava. Um mundo que ainda existia. Um mundo que, por esse amor, teria sempre a possibilidade de voltar.
A Semana Santa existe para que essa contemplação não fique apenas no campo das ideias. A liturgia da Igreja, com toda a sua precisão e beleza, oferece o rito. A meditação pessoal oferece o interior. E quem deseja aprofundar essa contemplação com um guia de rara densidade espiritual e rigor histórico encontrará em O que Jesus via do alto da Cruz, do padre dominicano A.-D. Sertillanges, publicado pela Editora Ecclesiae, uma companhia à altura do mistério que esses dias celebram.




