Há livros que, por serem atemporais, são sempre oportunos. É por isso que a reedição de ‘A Mulher Eterna’, de Gertrud von le Fort, deve ser não apenas bem-vinda, mas aclamada.
Com essas palavras, Alice von Hildebrand, autora de “O Privilégio de Ser Mulher”, apresenta a obra que ela considera, "uma meditação sublime sobre as palavras de São Paulo: 'Porque quando sou fraco, então sou forte' (2 Cor 12, 10)". Para a filósofa católica, “A Mulher Eterna” constitui um apelo às mulheres: imitar Maria, a Mãe por excelência, é o caminho para a vitória: Tudo posso naquele que me fortalece (Fl 4, 13).
A edição desta obra publicada pela Editora Ecclesiae, que abordamos neste texto, chega num momento em que as mulheres, paradoxalmente, nunca estiveram tão livres segundo os critérios do mundo e nunca pareceram tão esgotadas segundo os dados da realidade. O que você precisa saber antes de ler este livro está aqui!
A autora de "A mulher eterna" e sua visão do feminino

Gertrud von le Fort (1876-1971) nasceu em Minden, na Alemanha, numa família de origem huguenote (de orientação calvinista). Estudou teologia protestante, história e filosofia nas universidades de Heidelberg, Marburg e Berlim. Em 1926, aos cinquenta anos, converteu-se ao catolicismo em Roma. Sua obra literária, traduzida para mais de dezessete línguas, inclui romances e poesias. Von le Fort figura entre os grandes escritores católicos do século XX, ao lado de Paul Claudel, G.K. Chesterton e sua compatriota Edith Stein.
O encontro com a futura mártir de Auschwitz influenciou essencialmente a composição de “A Mulher Eterna”. A própria Gertrud testemunhou: "Durante o trabalho recordei frequentemente a imagem espiritual de Edith Stein como aquela que tinha em mente em minha descrição de uma autêntica mulher cristã." A piedade, a simplicidade e a modéstia unidas à alta inteligência da filósofa carmelita comunicaram a von le Fort uma visão interior do feminino que permeia toda a obra.
A autora adverte desde o início que seu livro interpreta o significado da mulher sob o aspecto simbólico, e esta abordagem exige do leitor contemporâneo um esforço particular. Símbolos, explica von le Fort, "são sinais ou imagens pelos quais se apreendem as realidades metafísicas últimas [...] por meio de semelhanças. Os símbolos são, portanto, a linguagem de uma realidade invisível que se torna articulada no mundo visível." Quando a autora afirma que a mulher tem um vínculo especial com a esfera religiosa, refere-se à representação visual dessa qualidade, confiada de maneira especial ao feminino. O portador pode afastar-se de seu símbolo, "mas o símbolo em si permanece" inviolado e inviolável.
A tragédia do feminismo e a maternidade esquecida

A autora reconhece as dores que motivaram o movimento feminista, na monotonia e na estreiteza das famílias de classe média, escreve, “dada a ânsia de suas almas insatisfeitas, as mulheres daquele período clamavam por espírito e amor. Aqui reside sua tragédia profunda e digna de respeito." Porém, ao tentar compartilhar o mundo intelectual masculino, a mulher afundou ao nível de seus simples métodos e permitiu-se ser inserida como uma engrenagem no aparato do homem. O erro residia no caráter de uma época que não conhecia mais suas obrigações nem a direção de seu objetivo final.
Conforme observa Aline Brodbeck no posfácio desta edição, a perda do véu, seja simbólica ou literal, representa a perda do mistério. A autora do posfácio, estudiosa da vocação feminina, sublinha que "a mulher encontra a Verdade não na autoglorificação, mas na capacidade de doação, de concepção e acolhimento".
A maternidade, longe de ser apenas um fator biológico, "representa a continuidade, a preservação e a mediação da vida e da cultura", sendo inata a todas as mulheres e manifestando-se de diversas formas, "sendo a espiritual por si só a definição de maternidade".
Maria como chave de compreensão

O livro apresenta a missão mariana como chave de inteligibilidade da mulher e da própria ordem do mundo. Maria é apresentada como princípio hermenêutico: "Assim como Maria precede a manifestação de Cristo pelo seu fiat, também toda renovação cultural autêntica será precedida por um retorno à humildade, à receptividade e ao reconhecimento de que a vida é dom antes de ser projeto", observa Brodbeck. A mulher encontra sua realização cooperando com a ordem do ser. Sua força nasce da consonância com o plano divino, da fidelidade à sua estrutura criada por Deus.
Para as mulheres católicas que buscam compreender sua vocação num tempo de confusão, essa obra oferece uma contemplação restauradora. O livro se propõe a redescobrir aquilo que Alice von Hildebrand chamou de "o sentido do sobrenatural, que faz do ser mulher um privilégio e um sinal de grandeza".



