A Igreja celebra no dia 30 de abril a memória de São Pio V, o Papa dominicano que salvou a Cristandade da invasão otomana e implementou com vigor as reformas do Concílio de Trento. Seu pontificado, embora breve (1566-1572), marcou profundamente a história da Igreja e da Europa, deixando um legado que perdura até nossos dias na liturgia, na disciplina eclesiástica e na devoção mariana.

Da pobreza ao pontificado

Antonio Ghislieri nasceu em 17 de janeiro de 1504 em Bosco Marengo, no Ducado de Milão, numa família pobre. Na infância foi pastor de ovelhas, e aos quatorze anos ingressou na Ordem dos Pregadores de São Domingos, adotando o nome de Frei Michele. Ordenado sacerdote em 1528, dedicou-se ao ensino e logo foi nomeado inquisidor em Como e Bérgamo, onde ganhou reputação de integridade inflexível. Sua carreira eclesiástica avançou rapidamente sob os pontificados de Paulo IV e Pio IV, tornando-se bispo, cardeal e Grande Inquisidor. Em 1566, foi eleito Papa com o apoio decisivo de São Carlos Borromeu, tomando o nome de Pio V.

Mesmo como Sumo Pontífice, Pio V manteve os hábitos austeros do frade dominicano. Usava o hábito branco da Ordem sob as vestes papais, costume que se tornaria tradição para todos os papas subsequentes. Aboliu os gastos supérfluos da corte pontifícia, dispensou a pompa nas cerimônias e combateu duramente o nepotismo, chegando a dizer aos parentes que acorreram a Roma em busca de favores que um familiar do Papa deveria considerar-se suficientemente rico se não estivesse na miséria.

O reformador da Igreja e seus feitos

A grande missão de Pio V foi implementar efetivamente os decretos do Concílio de Trento, encerrado poucos anos antes. Impôs a obrigação de residência aos bispos, exigiu a santidade de vida dos sacerdotes, regulamentou a clausura dos religiosos e restringiu a concessão de indulgências que haviam servido de pretexto para a revolta protestante. Publicou o novo Breviário Romano (1568) e o novo Missal Romano (1570), unificando pela primeira vez a celebração da Missa em toda a Igreja latina. Essa liturgia, conhecida posteriormente como Missa Tridentina, permaneceria em vigor por quatrocentos anos. Declarou ainda Santo Tomás de Aquino Doutor da Igreja em 1567, consolidando a teologia tomista como referência para a formação católica.

E o feito mais célebre de São Pio V foi a formação da Liga Santa contra o Império Otomano, que ameaçava conquistar toda a Europa cristã. Com sua autoridade moral, conseguiu unir forças católicas que viviam em constantes rivalidades, reunindo as esquadras de Espanha, Veneza e dos Estados Papais sob o comando de Dom João de Áustria. No dia 7 de outubro de 1571, no Golfo de Lepanto, a frota cristã enfrentou os trezentos navios turcos. Antes da batalha, o Papa pedira aos fiéis de Roma que rezassem o Terço pela vitória. Após três horas de combate feroz, a armada otomana foi derrotada, encerrando definitivamente a ameaça de invasão muçulmana pelo Mediterrâneo.

Naquele mesmo dia, estando em Roma, São Pio V interrompeu subitamente uma reunião, dirigiu-se à janela e, olhando para o céu, exclamou que era hora de agradecer a Deus pela vitória que acabava de conceder ao exército cristão. A notícia oficial só chegaria dias depois, confirmando o que o Papa já sabia por luz sobrenatural. Em ação de graças à Virgem Maria, cuja intercessão atribuiu a vitória, Pio V instituiu a festa de Nossa Senhora da Vitória, posteriormente chamada Nossa Senhora do Rosário, celebrada em 7 de outubro.

Morte e canonização

Debilitado por longa enfermidade, São Pio V faleceu em 1º de maio de 1572, aos 68 anos de idade. Seus restos mortais repousam até hoje na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Cem anos após sua morte, foi beatificado pelo Papa Clemente X em 27 de abril de 1672, e canonizado pelo Papa Clemente XI em 22 de maio de 1712. Sua festa litúrgica, originalmente celebrada em 5 de maio, foi transferida em 1969 para o dia 30 de abril, véspera do aniversário de sua morte. São Pio V permanece como modelo de reformador zeloso, defensor intrépido da fé e devoto fervoroso da Virgem Maria.