Você mentiria para salvar a vida de um inocente? E se um assassino batesse à sua porta perguntando onde está escondida sua vítima, você diria a verdade? Essas perguntas não são meros exercícios acadêmicos, pois são dúvidas de reflexão moral que continuam inquietando a consciência de quem leva a sério a vida ética. A resposta fácil seria dizer que mentir é sempre errado, ponto final. A resposta cínica seria dizer que todo mundo mente e que não há por que se preocupar com isso. Santo Agostinho recusa ambas as saídas e nos conduz por um caminho mais difícil, porém mais honesto.
No tratado "Sobre a Mentira", escrito no final do século IV, o Bispo de Hipona enfrenta o tema com seriedade. E a Editora Ecclesiae publica a segunda edição deste livro na tradução de Tiago Tondinelli, com apresentação e notas que situam o texto em seu contexto histórico e teológico.
Vivemos cercados de meias-verdades, fake news, assessorias de imprensa treinadas para "gerenciar narrativas" e uma cultura que relativiza a mentira conforme a conveniência. Santo Agostinho nos lembra que a questão não é nova, que os homens sempre mentiram e sempre se perguntaram se deveriam fazê-lo...
O que é, afinal, uma mentira
A primeira dificuldade está na própria definição. Nem toda informação falsa é mentira, pois quem transmite algo que sinceramente acredita ser verdade, ainda que esteja objetivamente errado, não mente exatamente. Pode ser acusado de ignorância, de negligência, de erro de julgamento, mas não de mentira.
A mentira exige dois elementos simultâneos, a saber, a falsidade objetiva da informação e a intenção de enganar. Uma pessoa que sabe ou supõe ser falso o que diz, e mesmo assim o diz com o propósito de induzir outra ao erro, essa pessoa mente. O coração do mentiroso, como observa Agostinho, é dúplice, pois:
Possui dois pensamentos, um sobre o que sabe ser verdade e outro sobre o que escolhe dizer. Essa definição exclui da categoria de mentira as piadas e as manifestações de jocosidade, pois nelas não há intenção de engano. Quem conta uma piada sabe que o ouvinte reconhece tratar-se de uma brincadeira, de modo que não há duplicidade de coração. A mentira propriamente dita supõe a vontade de fazer com que outro tome por verdadeiro o que o falante sabe ser falso. É precisamente essa vontade de enganar que constitui o núcleo moral do problema.
Os casos que perturbam a consciência
Agostinho não se contenta com definições abstratas e mergulha nos casos concretos que perturbam a consciência. Imaginemos alguém que sabe de um caminho repleto de ladrões e deseja alertar um viajante. Acontece que esse viajante nunca acredita em nada do que aquela pessoa diz. Se o benfeitor disser a verdade ("há ladrões naquele caminho"), o viajante fará exatamente o oposto e seguirá pela estrada perigosa. Se, porém, disser uma falsidade ("não há perigo algum naquela estrada"), o viajante desconfiará e evitará o caminho. O resultado será que a falsidade salvou uma vida, enquanto a verdade a teria condenado.
Casos como esse revelam a complexidade moral que o tratamento superficial da mentira costuma ignorar. Agostinho reconhece que há hierarquia entre os pecados e que nem todas as mentiras possuem a mesma gravidade. Ele distingue oito espécies de mentira, desde aquelas proferidas no ensino da religião (as mais graves) até aquelas que não prejudicam ninguém e beneficiam alguém (as menos graves). A mentira que salva uma vida inocente sem prejudicar terceiros ocupa posição diferente da mentira que destrói uma reputação ou condena um inocente.
A duplicidade do coração e as duas bocas
Uma das imagens mais poderosas do tratado é a distinção entre a boca da voz e a boca do coração.
O homem possui duas bocas, uma exterior, pela qual emite sons e palavras, e outra interior, pela qual expressa o que verdadeiramente pensa e deseja. A mentira consiste na discordância entre essas duas bocas, quando a voz diz uma coisa e o coração sabe outra. Essa duplicidade é o que torna a mentira moralmente reprovável, independentemente de suas consequências práticas. O mentiroso divide a si mesmo, rompe a unidade entre o que é e o que aparenta ser, e nessa cisão interior reside o dano mais profundo.
Os Salmos são categóricos ao condenar a mentira.
"Tu perderás a todos os que proferem a mentira" (Sl 5, 7).
Essa condenação, porém, não dispensa o cristão de enfrentar as situações concretas em que a verdade parece conduzir ao mal e a mentira ao bem.
O santo reconhece que os homens são seres imperfeitos, que vivem em circunstâncias imperfeitas, e que às vezes precisam escolher entre males. O que ele recusa é a banalização da mentira, o tratamento leviano que a reduz a ferramenta de conveniência ou a pretexto de boas intenções.
O tratado "Sobre a Mentira" te leva a um exame de consciência, à reflexão sobre o que significa ser verdadeiro num mundo que premia a dissimulação. Agostinho escreve para cristãos que desejam viver segundo a verdade, mas que se encontram diante de situações em que a verdade parece cruel e a mentira misericordiosa.
Para quem está cansado do relativismo cínico e deseja enfrentar as questões éticas, "Sobre a Mentira é leitura indispensável". Santo Agostinho, como sempre, não facilita a vida do leitor, mas recompensa quem aceita o desafio de pensar junto com ele.



