A Escritura é, em sua natureza, divinamente inspirada. Por essa razão, ela ocupa um lugar sem paralelo na história da literatura universal, do mesmo modo que a Encarnação da Palavra Eterna ocupa um lugar sem paralelo na história da humanidade. A palavra inspirada assemelha-se à Palavra Encarnada em aspectos que a Tradição sempre reconheceu como centrais. E, ao aproximar-se da Bíblia, portanto, você se aproxima de Jesus, a Palavra de Deus. E para que esse encontro se realize de fato, o caminho passa por um estudo devoto e piedoso da Sagrada Escritura!

Bíblia - pintura

1 - Pontos de atenção ao começar a estudar a Bíblia

Dito isso, o primeiro passo no estudo consiste em aprender a discernir o sentido total do texto sagrado e o modo como nele se incluem o sentido literal e os sentidos espirituais. Isso, porém, não significa que se deva exagerar na interpretação, buscando significados que não se encontram de fato nas páginas lidas. A exegese espiritual é uma ciência sagrada que procede de acordo com princípios definidos e permanece sob a responsabilidade da Sagrada Tradição, do Magistério e da comunidade de intérpretes — tanto os vivos quanto os que já repousam em Cristo.

Na busca do sentido total, deve-se evitar a tendência de espiritualizar o texto em demasia, de modo que a Verdade literal seja minimizada ou mesmo negada. Santo Tomás de Aquino, consciente desse risco, asseverou que todos os sentidos devem estar fundados no literal (cf. CIC 116). Por outro lado, confinar o significado de uma passagem ao sentido literal indicado pelo seu autor humano seria ignorar que o Autor Divino intencionou que ela fosse lida à luz da Vinda do Cristo.

A Igreja, por providência, nos legou diretrizes para o estudo do texto sagrado. O caráter singular e a autoria divina dele nos chamam a lê-lo "com o Espírito". O Concílio Vaticano II delineou de forma prática esse conselho, direcionando-nos a ler de acordo com três critérios: Primeiro, devemos prestar atenção ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura (cf. CIC 112). Segundo, devemos ler dentro da Tradição viva da Igreja inteira (cf. CIC 113). Terceiro, devemos estar atentos à analogia da Fé (cf. CIC 114; Rm 12,6).

Esses critérios nos protegem de perigos que iludem leitores de toda ordem, do mais novo estudante ao erudito consagrado. Ler fora de contexto é, com toda a probabilidade, a armadilha mais difícil de se evitar. Um texto, privado de seu contexto original, pode ser manipulado a dizer algo que o seu autor jamais intencionou — e a história nos mostra que isso ocorreu com frequência ao longo dos séculos.

Os critérios da Igreja nos guiam porque definem em que consistem os contextos legítimos de cada passagem, impedindo que a leitura se torne um exercício de projeção das próprias convicções sobre o texto revelado.

Bíblia

2. Tenha em mãos uma boa versão e não hesite em buscar auxílio

A escolha da versão pela qual se fará o estudo é um passo que merece atenção e cuidado. Ainda que não se deva de modo algum negligenciar a diretiva do Magistério para que se tome como versão latina oficial a Neovulgata, a ser usada na Liturgia, há razões de peso para que o leitor conheça também a tradição que remonta à Vulgata de São Jerônimo. Foi sobre ela que, durante tantos séculos, os teólogos se debruçaram; foram as suas páginas que os monges por tanto tempo decoraram e meditaram; e é a ela que se referem tantos comentários dos Santos Padres e Doutores da Igreja.

Por essa razão, indicamos a Bíblia Sagrada que a Editora Ecclesiae reeditou e apresentou ao público na tradução do Pe. Manuel de Matos Soares, cuja referência basilar é ainda a Vulgata.

Ter a versão adequada, contudo, é o começo do caminho, e não o seu fim. O estudo do texto sagrado não deve ser conduzido de modo isolado, como se o leitor pudesse, por si só, alcançar conclusões seguras sobre tudo o que lê. A tentação de interpretar passagens segundo o próprio entendimento, sem recorrer à Tradição e ao ensinamento da Igreja, é um risco que acompanha todo estudante e que a história demonstrou produzir confusões e erros ao longo dos séculos.

Para evitar esse risco, é de grande proveito recorrer a materiais de estudo que orientem a leitura de forma metódica e fiel ao Magistério. A Editora Ecclesiae também disponibiliza Cadernos de Estudo Bíblico elaborados para esse fim, que conduzem o leitor passagem a passagem, oferecendo o contexto histórico, teológico e espiritual de que cada trecho necessita para ser compreendido em sua inteireza.

Escolha seu Caderno de Estudo!

Por fim, é necessário lembrar que o estudo da Fé não se faz sem a orientação pastoral. Quando surgirem dúvidas — e elas surgirão, pois o texto sagrado é inesgotável —, o leitor deve procurar o auxílio de um Sacerdote!

O Padre, por seu ofício e formação, está posto pela Igreja para guiar os fiéis na compreensão da Revelação, e recorrer a ele não é sinal de fraqueza, mas de prudência e obediência ao modo como Cristo dispôs a Sua Igreja.

3 - Defina um tempo para ler

A leitura do texto sagrado, para que produza fruto na alma, pede regularidade. É preciso reservar-lhe um tempo determinado, com horário e duração definidos, de modo que o estudo se torne parte da ordem do dia ou da semana.

Os Santos que mais se alimentaram das páginas sagradas foram, sem exceção, homens e mulheres de disciplina, que souberam subordinar as ocupações do dia à primazia da vida interior. Essa disciplina é um meio pelo qual a alma se dispõe ao encontro com Deus.

Quando o leitor se senta à mesma hora, no mesmo lugar, e abre o mesmo Livro, ele está, por esse gesto repetido, dizendo ao Senhor que aquele momento Lhe pertence. A regularidade do hábito educa a vontade e ordena os afetos, preparando o terreno para que a Graça opere com menos obstáculos. Quanto à duração, convém começar com um tempo que se possa sustentar com constância, ainda que seja breve. É preferível ler quinze minutos todos os dias do que reservar duas horas em um único dia da semana e abandonar o restante ao silêncio. A constância, nessa matéria, vale mais do que a quantidade.

A escrita das Escrituras

4 - Reze (e muito)

Todo estudo da Sagrada Escritura que não desemboque na oração permanece incompleto, pois o fim último da leitura deve ser o encontro vivo com Deus. Os Padres do Concílio Vaticano II, recolhendo a mais antiga Tradição católica, recordaram aos fiéis aquilo que São Jerônimo já ensinava: desconhecer as Escrituras é desconhecer o próprio Cristo (cf. Dei Verbum, 25). Se conhecer o texto sagrado é conhecer a Cristo, então a leitura deve conduzir, por sua própria natureza, à oração — que é o modo pelo qual a alma se dirige a Ele e se deixa transformar pela Sua presença.

A Igreja também cultivou a Lectio Divina, uma forma de oração que une de modo singular a leitura e a contemplação. Nela, o fiel lê uma passagem do texto sagrado, medita sobre o que leu, eleva o coração a Deus em oração e, por fim, repousa em Sua presença na contemplação. Esses quatro movimentos compõem um ritmo que a alma vai aprendendo à medida que se exercita nele.

O Santo Rosário constitui outro auxílio de valor inestimável para quem estuda o texto sagrado. Ao meditar os Mistérios da vida de Cristo e de Nossa Senhora, o fiel percorre, de forma orante, os acontecimentos centrais da História da Salvação — os mesmos que encontra nas páginas que estuda.

É proveitoso também recorrer às orações dos Santos, que souberam, antes de nós, alimentar-se do texto sagrado. As orações de Santo Agostinho, de São Tomás de Aquino, de Santa Teresa de Ávila e de tantos outros Doutores e místicos nascem de uma intimidade profunda com a Revelação e podem servir de guia para quem ainda está aprendendo a rezar com o que lê.

Neste tempo de Quaresma, em que a Igreja nos convida de modo particular à penitência, à oração e à conversão, o estudo acompanhado da oração ganha um sentido ainda mais profundo. A Quaresma é, por excelência, o tempo em que os fiéis são chamados a voltar-se para Deus com todo o coração, e a leitura orante do texto sagrado é um dos caminhos mais seguros para corresponder a esse chamado. As leituras próprias da Liturgia quaresmal já traçam, por si mesmas, um itinerário de conversão que o fiel pode acompanhar dia a dia, unindo o estudo pessoal ao ritmo da Igreja.