Quem abre a Catena Aurea pela primeira vez costuma estranhar. A página não traz o texto corrido de um autor explicando o Evangelho. O que se vê é uma sucessão de vozes — Agostinho, João Crisóstomo, Jerônimo, Gregório Magno, Beda, Orígenes — que se revezam comentando um mesmo versículo, cada trecho com o nome de seu autor no alto. É essa a forma do livro, e entendê-la é o primeiro passo para tirar proveito dele.

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O que é, afinal, uma "corrente de ouro"

Catena, em latim, quer dizer cadeia, corrente. Uma catena bíblica é um gênero antigo: um comentário montado inteiramente com passagens de autores anteriores, encadeadas versículo por versículo, cada uma apresentada com o nome de quem a escreveu e ajustada o suficiente para que o conjunto se leia de modo contínuo. Metade do que os Padres comentaram sobre as Escrituras, dizem os estudiosos, sobreviveu apenas nessa forma de florilégio. A obra de Tomás de Aquino é a mais célebre das catenas latinas, e o adjetivo que a tradição lhe acrescentou — aurea, de ouro — diz o apreço em que foi tida desde cedo. Corrente de ouro: elos preciosos engastados um no outro.

Tomás a organizou a pedido do Papa Urbano IV, entre o fim de 1262 e o início de 1263, no mesmo período em que trabalhava em outras de suas grandes obras. A encomenda pedia uma compilação dos comentários dos Padres aos Evangelhos. O Aquinate foi além do que se pedia: em vez de empilhar citações, dispô-las numa exposição seguida, versículo após versículo, de tal modo que o leitor avança pelo texto sagrado como se um único mestre o conduzisse, quando na verdade ouve dezenas deles. São comentaristas gregos e latinos reunidos lado a lado — a edição da Ecclesiae registra cinquenta e sete autores gregos e vinte e dois latinos, alguns já pouco conhecidos no século XIII. Reunir vozes do Oriente e do Ocidente numa só leitura, num tempo em que o cisma entre as duas tradições ainda sangrava, era também um gesto de comunhão.

Por que ler os Padres pela mão de Tomás

Há uma diferença entre ler o Evangelho sozinho e lê-lo cercado por aqueles que primeiro o meditaram. A Catena oferece a segunda experiência. Cada passagem dos quatro Evangelhos chega ao leitor já acompanhada do que a Igreja antiga viu nela: a precisão doutrinal de um, a explicação histórica de outro, o arroubo místico de um terceiro. Em média, são vários Padres por versículo, e o efeito é o de assistir a uma conversa de séculos sobre a mesma linha das Escrituras.

Para quem deseja formar-se na leitura católica da Bíblia, esse acesso ordenado à patrística vale por uma pequena biblioteca. Boa parte desses textos está dispersa em obras vastas e de difícil consulta; alguns sobreviveram somente porque Tomás os transcreveu. Lê-los enfileirados, sob a guia de um doutor que sabia bem por que escolhia cada um, poupa anos de garimpo e ensina, de quebra, a própria arte de interpretar a Escritura com a Tradição, e não contra ela ou à margem dela.

Como ler sem se perder

A Catena não foi feita para ser lida de capa a capa como um romance, e tentar isso é o caminho mais curto para abandoná-la na terceira semana. Ela é uma obra de consulta e de meditação, e rende mais quando lida aos poucos.

A primeira recomendação é escolher um Evangelho para começar, em vez de encarar os quatro de uma vez. Quem busca contemplação e profundidade teológica costuma se dar bem iniciando por João; quem prefere um relato breve e direto, que se percorre depressa, encontra em Marcos uma boa porta de entrada. A segunda é ler com a Bíblia aberta ao lado: leia primeiro a passagem do Evangelho, deixe-a assentar, e só então percorra os comentários reunidos para ela. A terceira é casar a leitura com a liturgia. Acompanhar, dia após dia, o que os Padres dizem sobre o Evangelho da Missa daquela data transforma a Catena num companheiro de oração, e não num volume de estudo que pesa na estante. Lida assim, em pequenas porções e com calma, ela deixa de intimidar e passa a alimentar.

Os quatro volumes

O kit completo reúne os quatro Evangelhos em quatro tomos: Mateus, Marcos, Lucas e João, somando mais de duas mil e quatrocentas páginas na edição da Ecclesiae. É obra para o estudante de teologia e o seminarista, para o catequista que prepara seus encontros, para o sacerdote que medita o Evangelho do dia e também para o leigo que quer ler as Escrituras em companhia da Igreja de todos os tempos. Não é leitura de uma tarde; é uma biblioteca patrística para a vida inteira, organizada pela mão de um santo doutor.

Ao fim de cada passagem, quem lê a Catena tem a sensação de não ter ficado sozinho diante da Palavra. É esse, talvez, o maior presente da corrente de ouro: lembrar que ninguém lê o Evangelho do nada, e que crer é entrar numa conversa começada muito antes de nós e que não terminará conosco.

Conheça o Kit Catena Aurea

Fonte: AQUINO, Tomás de. Catena Aurea (4 vols.: Mateus, Marcos, Lucas, João). Campinas: Ecclesiae. Contexto histórico conforme registros da própria obra (encomenda do Papa Urbano IV, 1262–1263) e verbete "Catena" da tradição de comentário bíblico.