— O HOMEM POR TRÁS DO APELIDO —

Antes de duvidar da Ressurreição, Tomé já tinha dado provas de uma coragem que faltou aos outros. Quando Jesus resolve voltar à Judeia para socorrer Lázaro, sabendo que ali queriam matá-lo, é Tomé quem diz aos companheiros: "Vamos também nós, para morrermos com ele" (Jo 11,16). Na Última Ceia, foi a sua inquietação que arrancou de Cristo uma das frases que sustentam toda a fé cristã. Diante do anúncio da partida, Tomé interrompe: "Senhor, não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?" E ouve em resposta: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,5-6). A dúvida dele, ali, abriu espaço para uma revelação que valeu para todos.

— "MEU SENHOR E MEU DEUS" —

Quando os outros lhe contam que viram o Ressuscitado, Tomé estava ausente, e recusa-se a crer só de ouvir falar: quer ver o sinal dos pregos e tocar o lado aberto (Jo 20,25). Oito dias depois, Jesus volta, dirige-se a ele e o convida a fazer justamente o que pedira: "Põe aqui o teu dedo... e não sejas incrédulo, mas crente" (Jo 20,27). A resposta de Tomé é a confissão mais densa de todo o Novo Testamento: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,28). Bento XVI, numa catequese de 27 de setembro de 2006, observou que nessas palavras Tomé reconhece Cristo não tanto pelo rosto quanto pelas chagas, sinais em que se mede o quanto Ele nos amou. E Santo Agostinho resume o paradoxo: Tomé via e tocava o homem, mas confessava o Deus que não via nem tocava. É a mesma profissão que a Igreja sussurra ainda hoje, a cada elevação da hóstia na Missa.

— DA DÚVIDA ATÉ A ÍNDIA —

O que aconteceu com aquele homem depois de crer mede o tamanho da sua conversão. A tradição, recolhida já por Orígenes e Eusébio de Cesareia, manda Tomé pregar entre os persas e os partas e, mais longe que qualquer outro apóstolo, até a Índia. Em Mylapore, perto da atual Chennai, foi morto por volta do ano 72, trespassado por uma lança enquanto rezava. Sobre o seu túmulo ergueu-se uma basílica, e as comunidades do sul da Índia que se dizem "cristãos de São Tomé" guardam até hoje uma fé que remontam a ele. A Igreja latina celebrava sua memória em 21 de dezembro; depois da reforma do calendário, em 1969, passou a recordá-lo em 3 de julho. O apóstolo que precisou tocar para crer acabou levando o Evangelho aonde nenhum dos onze chegou, e selando com o próprio sangue aquilo que um dia hesitara em aceitar.

Que a festa deste apóstolo nos console nas horas de dúvida e nos ensine, como ensinou a ele, que toda escuridão sincera pode desembocar na luz.

Fontes: Evangelho de São João (caps. 11, 14 e 20); Bento XVI, Audiência Geral de 27 de setembro de 2006; tradição hagiográfica registrada no Martirológio Romano.