Há uma cena no Livro de Tobias que deveria estar diante dos olhos de todo casal cristão. Tobias e Sara acabam de se casar; estão a sós, pela primeira vez, no quarto nupcial. Antes de qualquer gesto de intimidade, o jovem se levanta, ajoelha-se com ela e diz à esposa: "Levanta-te, Sara, e roguemos a Deus" (Tb 8,4). A oração de Tobias é límpida sobre o que os move: "não é para satisfazer a minha paixão que recebo a minha prima como esposa, mas unicamente com o desejo de suscitar uma posteridade, pela qual o vosso nome seja eternamente bendito" (Tb 8,9). Só depois, entregues ao Senhor, eles se entregam um ao outro. Nessa ordem está quase tudo o que um casamento precisa saber.

O que Tobias soube na noite de núpcias

São João Paulo II deteve-se longamente sobre esse episódio nas catequeses que vieram a formar a Teologia do Corpo. Para ele, na oração dos noivos a dimensão litúrgica do sacramento aparece sob o horizonte daquilo que chamou de "linguagem do corpo": tudo se passa na própria noite de núpcias, e ali o amor se mostra "forte como a morte" porque Tobias e Sara se voltam para Deus sem hesitar (cf. Teologia do Corpo, catequese 114). O casal que reza junto antes de se amar reconhece, num só gesto, que o outro não é posse e que a união tem um dono anterior a ambos. É uma lição que a noite de Tobias guardou para sempre: o amor humano só se sustenta quando se apoia em Quem o criou. Inverter essa ordem, e querer amar primeiro para só mais tarde rezar, é levantar uma casa e adiar o alicerce.

Aprender a rezar antes de aprender a conviver

O equívoco mais comum é pensar que a oração a dois é assunto de quem já casou. Tobias e Sara rezam como noivos, na primeira noite, e o anjo Rafael os havia instruído antes mesmo do enlace: "antes de se unir a ela, levantem-se os dois e rezem" (Tb 6,18). No namoro e no noivado, quando duas vidas ainda se estudam e discernem se devem se tornar uma só, a oração comum é a forma mais honesta de fazer essa pergunta. Ajoelhar-se junto não é pedir que Deus abençoe uma decisão já tomada no íntimo de cada um. É levar a decisão diante d'Ele e ali pesá-la, sob uma luz que não vem de nós. Tobias dá a razão de tudo numa frase que ainda hoje desafia quem namora: "somos filhos dos santos e não nos devemos casar como os pagãos que não conhecem a Deus" (Tb 8,5). Casar como quem conhece a Deus começa muito antes do altar, quando os dois, ainda namorados, aprendem a calar juntos diante d'Ele e a deixar que seja Ele o terceiro presente em cada conversa sobre o futuro.

A igreja doméstica que começa a dois

No dia em que o casal se une em matrimônio, nasce algo que o Catecismo, recolhendo uma expressão antiquíssima, chama de Ecclesia domestica, a igreja doméstica. "É por isso que a casa de família se chama, com razão, igreja doméstica, comunidade de graça e de oração, escola de virtudes humanas e de caridade cristã" (CIC 1656). E mais adiante o mesmo Catecismo é direto sobre o lugar da oração nessa casa: "a família cristã é o primeiro lugar da educação para a oração", aquela em que se aprende a orar e a perseverar na oração (CIC 2685). Essa igreja não espera a chegada dos filhos para existir: ela nasce a dois, no primeiro Pai Nosso rezado de mãos dadas na cozinha, antes de dormir, ou diante de uma dificuldade que nenhum dos dois sabe resolver sozinho. Na Carta às Famílias, de 2 de fevereiro de 1994, João Paulo II observou que a família encontra sua primeira e fundamental confirmação quando seus membros se reúnem na invocação comum do "Pai nosso"; a oração, escreveu, reforça a estabilidade e a solidez espiritual da família, fazendo-a participar da própria fortaleza de Deus.

Mas o mesmo Pontífice cuidou de lembrar que essa oração comum não dispensa a oração de cada um. Numa homilia pronunciada em Quinxassa, recordou que cada cônjuge deve reservar para si momentos de solidão com Deus, de coração a coração, nos quais o esposo ou a esposa não seja a primeira preocupação. Longe de afastar um do outro, é essa intimidade pessoal com o Senhor que dá aos dois forças para procurá-Lo em comum e reconhecer, a duas vozes, o que Ele pede deles. Existe em cada pessoa um vazio que nem o cônjuge mais amado consegue preencher, e ter isso à vista poupa o casamento da tentação mais silenciosa de todas: a de exigir do outro aquilo que só Deus pode dar.

Quando a oração custa

Seria desonesto pintar essa vida de oração como um repouso constante. Há estações áridas, em que rezar a dois parece esforço sem retorno, e há as crises, em que a vontade de ajoelhar lado a lado é a primeira a faltar — e é nessas horas, mais do que nas serenas, que a oração mostra para que serve. João Paulo II, ao tratar das famílias em dificuldade, foi taxativo: em todas as situações, mesmo as mais dolorosas, "nunca se descuide a oração, fonte de luz, de força e alimento da esperança cristã" (Familiaris Consortio, 77). O casal que persevera na oração nas horas em que ela custa vai descobrindo que o vínculo não se apoia no calor do sentimento. O que o segura é a graça do sacramento, alimentada pedido a pedido.

Foi disso que viveu o Pe. Patrick Peyton, sacerdote irlandês da Congregação de Santa Cruz, ordenado em 15 de junho de 1941 e declarado venerável pelo Papa Francisco em 18 de dezembro de 2017. Tendo se curado de uma tuberculose grave por intercessão de Nossa Senhora, dedicou a vida a levar as famílias de volta ao terço, e resumiu sua pregação numa frase que correu o mundo em cartazes de estrada: "a família que reza unida permanece unida". Não prometia com isso uma vida sem provações, mas apontava o que meio século de apostolado lhe ensinara: duas pessoas voltadas para o mesmo Deus dificilmente se perdem uma da outra.

Depois de rezarem, Tobias e Sara pedem a Deus uma só coisa antes de adormecer: "tem misericórdia de nós e permite que envelheçamos juntos" (Tb 8,7). É o que suplica, em silêncio, toda aliança cristã. E é a oração feita a dois, do primeiro namoro à última enfermidade, que vai abrindo nos dois corações o espaço onde esse envelhecer juntos deixa de ser desejo e se torna obra de Deus.