Quando Cristo ascendeu ao céu, o grupo dos Doze trazia uma ferida aberta, pois Judas Iscariotes havia traído o Mestre e tirado a própria vida, e os Onze restantes compreenderam, ainda em Jerusalém, que era necessário restaurar o número simbólico dos Doze, que correspondia às doze tribos de Israel e à plenitude do povo de Deus.

A cena que se seguiu é uma das mais bonitas dos primeiros capítulos da Igreja recém-nascida. Pedro levanta-se no meio dos irmãos reunidos, cerca de cento e vinte pessoas segundo a tradição, e lembra que o próprio rei Davi havia profetizado, séculos antes, que outro deveria ocupar o lugar do traidor. Em seguida, propõe um critério rigoroso. O escolhido precisaria ter acompanhado Jesus desde o batismo de João até o dia da Ascensão, para que pudesse dar testemunho da Ressurreição com autoridade própria, e não por relato de outros.

Dois homens preenchiam o requisito, José Barsabás, chamado Justo, e Matias. Os apóstolos rezaram pedindo que o próprio Deus revelasse a escolha, e tiraram a sorte.

A sorte caiu sobre Matias

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O nome que já dizia tudo! Matias, em hebraico, significa dom de Deus. E é exatamente assim que ele entra na história da Igreja, como um dom concedido pelo Espírito Santo para completar o colégio apostólico antes de Pentecostes. Poucos dias depois de sua eleição, quando o Espírito desceu sobre os apóstolos no Cenáculo em línguas de fogo, Matias estava lá. Em pé de igualdade com Pedro, com João, com Tiago, com Tomé e com os demais, recebeu a mesma efusão e a mesma missão.

Embora não tenha sido chamado por Cristo durante a vida pública, Matias recebeu o Espírito Santo no mesmo dia, na mesma sala e com a mesma intensidade que os outros onze. A Igreja entende, desde os primeiros séculos, que ele foi verdadeiramente apóstolo, sem qualquer redução de dignidade.

Os feitos e a missão

SÃO MATIAS

Os relatos sobre o ministério de Matias são fragmentados, como acontece com vários dos apóstolos que se afastaram do círculo mais conhecido em torno de Pedro e Paulo. Ainda assim, a tradição da Igreja preservou um itinerário razoavelmente consistente.

Matias evangelizou primeiro na Judeia, terra que conhecia bem por ter caminhado por ali com Jesus. Em seguida, dirigiu-se à Capadócia, região da atual Turquia, onde anunciou a Boa Nova entre povos de língua e cultura distintas das suas. A última etapa de sua missão, segundo Clemente de Alexandria e outras fontes antigas, foi a Etiópia, descrita em alguns textos com o nome simbólico de "terra dos canibais", uma referência à hostilidade extrema que ele teria encontrado por lá.

Em todas essas regiões, conduziu multidões ao batismo e enfrentou perseguições. Os escritos mais antigos que mencionam pequenos fragmentos atribuídos a ele insistem em duas virtudes que marcavam sua pregação, a firmeza doutrinária e a coragem de quem sabia que sua vocação não veio por escolha humana, mas por designação divina.

O martírio

A morte de Matias está envolta em duas tradições principais, que convivem sem se anularem.

  • A primeira, mais difundida no Oriente, afirma que ele foi apedrejado por hostis em terra etíope e, depois de morto, decapitado, à maneira do martírio que se aplicava aos profetas rebeldes. É essa a tradição que justifica sua representação artística clássica, segurando um machado ou uma alabarda, instrumento de sua execução.

  • A segunda, registrada por Hipólito de Roma e mais antiga, sustenta que Matias morreu em idade avançada, em Jerusalém, depois de uma vida inteira dedicada à pregação. As fontes históricas não permitem decidir com certeza entre as duas versões, e a Igreja convive serenamente com essa indeterminação, reconhecendo que o que importa, no fim, é a fidelidade testemunhada ao longo da vida inteira.

O que se sabe com segurança é que santa Helena, mãe do imperador Constantino, mandou trasladar suas relíquias para Roma, no século IV. Parte delas permanece até hoje na Basílica de Santa Maria Maior, e a outra parte foi levada para a cidade de Tréveris, na Alemanha, onde se encontra na antiquíssima Igreja de São Matias. Tréveris o tem como padroeiro, e foi evangelizada, segundo a tradição local, por discípulos diretos do apóstolo.

A lição que permanece

A vida de São Matias carrega uma lição que atravessa os séculos com força particular. A vocação cristã não é uma conquista pessoal, nem uma carreira escolhida pelo próprio interessado. É um dom recebido, e o nome dele é o resumo perfeito dessa verdade. Matias, o dom de Deus.

Os outros apóstolos foram chamados pessoalmente por Cristo nas margens do lago, nas portas de Cafarnaum, nos caminhos da Galileia. Matias foi escolhido pelo discernimento orante da comunidade e pelo gesto que entregava a decisão final às mãos do próprio Deus. Em uma época em que a vocação é frequentemente confundida com preferência pessoal, sua história lembra que existem chamados que vêm de fora de nós, e que dependem de um sim livre, mas humilde.

Ele foi o décimo segundo. Não estava entre os primeiros chamados, e talvez por isso mesmo seja um dos mais eloquentes testemunhos de que a graça não tem hora marcada nem ordem fixa.

São Matias, apóstolo e mártir, rogai por nós!