No agreste pernambucano de 1936, em uma aldeia do distrito de Cimbres, a Virgem Maria apareceu a duas crianças de uma família e anunciou, com a serenidade de quem conhece o desfecho da história, a chegada do Comunismo ao Brasil. Profetizou perseguições, sangue derramado, fé enfraquecida entre os filhos do país. Foram quarenta aparições no Sítio Guarda, ao longo de 1936 e 1937, e em todas elas a Mãe de Deus assumiu uma posição que ainda hoje constrange certas leituras pacificadas do cristianismo.

Esse episódio mariano teve seu reconhecimento canônico em 2021, pelo decreto episcopal de Dom José Luiz Ferreira Salles, da Diocese de Pesqueira, depois de comissão de investigação científico-teológica conduzida segundo as Normas vigentes. Esta é, então, a mariofania reconhecida canônicamente em terras brasileiras.

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A posição contra o Comunismo

A oposição da Virgem Maria começa antes mesmo de Cimbres, começa em Nazaré. Quando a jovem ergue a voz na casa de Isabel e proclama no Magnificat que o Senhor derruba os poderosos de seus tronos e exalta os humildes, ela inaugura uma teologia da história em que o protagonismo pertence inteiramente a Deus. O equívoco contemporâneo está em ler esse cântico como manifesto revolucionário avant la lettre, um suposto Magnificat marxista.

A leitura mariana tem outra natureza, derruba os soberbos sem ódio e sem vingança, recupera os humildes pela misericórdia divina e não pela liquidação do adversário. O Comunismo, em sentido oposto, faz da luta de classes o motor da história, pretende redimir o homem sem Deus e termina por destruir o homem mesmo. Há aqui uma incompatibilidade de princípio, e dela decorre tudo o mais.

Essa incompatibilidade foi articulada pela Igreja muito antes de qualquer aparição moderna. Pio IX denunciou em 1849 as seitas socialistas e niilistas. Leão XIII, na Quod Apostolici Muneris de 1878, identificou nelas a negação simultânea da autoridade legítima, da família e da propriedade, três pilares da lei natural. Pio XI, em 1937, publicou a Divini Redemptoris, encíclica em que afirmou de modo lapidar a perversidade intrínseca dessa ideologia e advertiu sobre sua tática mais sutil, a capacidade de mascarar-se sob bandeiras sedutoras como a paz e a justiça social, infiltrando-se inclusive entre os fiéis.

O magistério pontifício, portanto, já havia traçado o mapa do erro quando Maria desceu sobre Cimbres.

Foi esse ponto que ela veio reforçar com sua autoridade materna. A Mãe de Deus não substitui a voz da Igreja, ela a confirma e a amplifica, levando a doutrina dos pontífices ao coração simples do povo brasileiro.

As mensagens da Aparição em Cimbres foram, nesse sentido, mais explícitas do que tudo o que havia sido dito em Fátima dezenove anos antes.

Ora, nas aparições de Cimbres, Pe. José Kehrle inicia questionamentos a Virgem Santíssima, na Serra do Ororubá, sobre diversas situações conflitantes e preocupantes, e é ele que coloca o tema da ideologia marxista em pauta nos diálogos com a Virgem Maria. Interpretamos do Comunismo que essa ideologia seria um dos castigos prometidos por Deus, porque é o próprio Pe. José Kehrle que o interpreta assim e a Senhora da(s) Graça(s) nem concorda e nem discorda, mas diz como combater para se evitar um mal maior.

Quando indagada sobre o que fazer diante de tanto caos, a Virgem ofereceu a única solução que jamais se cansou de oferecer aos seus. Rezar muito e fazer penitência.

Dessa forma, a Mãe do Salvador não propõe um programa político alternativo, não convoca a contra-revolução, não levanta exércitos. Aponta para a oração que une o céu e a terra, para a metanoia que devolve o homem ao estado de graça do qual ele se afastou ao colocar-se no centro do universo. Onde o Comunismo promete o paraíso terreno mediante a violência organizada, a Virgem promete a salvação eterna mediante a conversão do coração. Onde aquele exalta a luta de classes, esta exalta a vida sacramental. Onde aquele suprime Deus, esta restitui o homem a Deus.

A Senhora da(s) Graça(s) de Cimbres não veio ao Brasil para fazer política. Veio para cumprir o seu ofício de mãe diante de um perigo que já havia derramado rios de sangue na Rússia e que ameaçava chegar à América. Ouvi-la a tempo permanece como Graça.