A existência dos anjos
Desde as primeiras letras da Escritura até a consumação escatológica anunciada no Apocalipse, os anjos aparecem como presenças discretas associadas aos momentos decisivos da economia da salvação, de tal modo que a doutrina angélica integra profundamente a visão católica do universo, do governo divino e da própria condição humana. A existência dos anjos, embora seja formalmente objeto de fé, não é estranha nem repugnante à razão natural, pois quando a razão contempla a ordem do ser, percebe que os entes se dispõem segundo uma hierarquia de perfeições, e parece pouco razoável supor que a ordem da criação se interrompa justamente no homem, deixando um intervalo ontológico imenso entre a criatura racional corpórea e Deus, que é Espírito puríssimo. Essa consideração conduz quase espontaneamente à admissão de naturezas intermediárias, inteligências puras desprovidas de matéria, nas quais o conhecimento e a vontade se exerçam de modo mais elevado e imediato.
A Sagrada Escritura, por sua vez, introduz os anjos como dados constantes da história da salvação, apresentando-os desde o início como guardiões, mensageiros, defensores e ministros do Altíssimo. No Antigo Testamento, acompanham os patriarcas, protegem o povo eleito, executam os juízos divinos e participam do culto celeste. No Novo Testamento, sua presença torna-se ainda mais concentrada em torno do mistério de Cristo, pois são os anjos que anunciam a Encarnação do Verbo, proclamam Seu nascimento, servem-No durante Sua vida pública, confortam-No na agonia e testemunham Sua Ressurreição.

A Igreja nascente experimenta continuamente sua assistência, e os escritos apostólicos os mencionam com frequência como realidades vivas que libertam cativos, orientam os missionários, fortalecem os mártires e presidem os acontecimentos escatológicos. Quando, pois, o IV Concílio de Latrão declarou solenemente que Deus criou desde o princípio do tempo tanto a criatura espiritual quanto a corporal, não introduziu novidade alguma, mas fixou definitivamente uma verdade já possuída pela fé comum desde os tempos apostólicos.
A natureza dos Anjos
A Igreja sempre ensinou que os anjos são substâncias espirituais subsistentes, dotadas de inteligência e vontade, mas inteiramente desprovidas de matéria. Não ocupam lugar no espaço como os corpos, nem estão sujeitos às vicissitudes da geração e da corrupção. Sua forma de conhecer não depende dos sentidos, mas é intuitiva e proporcionada à sua natureza, de tal modo que neles a inteligibilidade não é obscurecida pela potencialidade corpórea. Os anjos são criaturas nas quais a forma subsiste sem matéria, e isso faz deles espelhos particularmente límpidos da perfeição divina, manifestando de modo mais puro a atualidade do ser e a imensidão das virtudes.
Todavia, essa excelência ontológica não os coloca fora da ordem da dependência, pois quanto mais elevada é a criatura, tanto mais radical é sua relação de dependência para com o Criador, e a superioridade dos anjos não os afasta de Deus, mas os fixa mais firmemente n'Ele como princípio e fim de todas as coisas.

Criados por Deus no estado de graça, os anjos foram submetidos a uma prova inicial, da qual resultou a distinção irreversível entre anjos bons e anjos maus. Os primeiros perseveraram na obediência e foram confirmados na visão beatífica, enquanto os segundos, por soberba, rebelaram-se contra a ordem divina e foram irrevogavelmente condenados.
Esta queda não suprimiu sua natureza angélica, mas a perverteu moralmente, tornando-os inimigos da ordem divina e da salvação humana, e assim se explica a realidade do combate espiritual, no qual os anjos fiéis assistem os homens enquanto os demônios os agridem, sempre sob o domínio soberano da Providência. A Revelação ensina ainda que os anjos não são todos iguais, mas dispostos em ordens e hierarquias que manifestam a sabedoria divina. Os anjos superiores iluminam os inferiores, e estes comunicam aos homens aquilo que lhes é confiado, numa ordem de subordinação que reflete a própria estrutura da Criação.
A missão dos anjos e o Anjo da Guarda
A Revelação apresenta os anjos como participantes estáveis do governo divino do mundo. Deus, que poderia agir sozinho em todos os níveis da realidade, escolheu comunicar sua ação às criaturas espirituais de modo permanente, fazendo delas instrumentos vivos de Sua sabedoria.
Não se deve imaginar, porém, que os anjos completem o que faltaria à ação divina, como se Deus necessitasse de auxiliares, pois eles existem precisamente porque a perfeição do agir divino consiste em produzir criaturas capazes de agir verdadeiramente, de tal modo que a causalidade angélica não é concorrente, mas derivada, não é autônoma, mas participada. Os anjos são os arautos que anunciam as ordens divinas e, muitas vezes, também os ministros que executam sua justiça, inclinando-se benevolentes ao bem espiritual dos homens, conforme atesta o Evangelho de São Lucas quando diz que há júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende.
No último grau da hierarquia celeste encontram-se os Anjos da Guarda, aos quais Deus confia cada alma humana como auxiliares no caminho da salvação. A doutrina dos Anjos da Guarda é uma das mais consoladoras do cristianismo, pois revela que nenhum homem caminha sozinho na peregrinação terrena.
Desde o nascimento até a morte, cada pessoa possui um espírito celeste que a acompanha, a protege dos perigos, a ilumina nas decisões e a conduz para Deus. Este anjo vê continuamente a face do Pai que está nos céus, conforme ensinou o próprio Cristo ao advertir que não se desprezassem os pequeninos, e sua assistência confirma com qual amor infinito Deus ama os homens, dispondo as maiores coisas em favor das menores, razão pela qual ninguém poderá alegar não ter sido amado. A devoção aos anjos, por isso, pertence ao núcleo da fé católica e possui grande importância prática para a vida espiritual.
A importância da doutrina angélica
A doutrina católica sempre afirmou que o mundo visível e o invisível não constituem dois universos paralelos, mas um único cosmos ordenado no qual as criaturas espirituais participam ativamente do desígnio divino a respeito do homem. A ação angélica não suprime a causalidade humana, nem a substitui, mas a pressupõe e a sustenta segundo uma ordem de subordinação que reflete a própria estrutura da Criação, de tal modo que a presença dos anjos confirma a responsabilidade moral do homem, manifestando que os atos humanos se inserem num teatro mais amplo onde causas visíveis e invisíveis concorrem sob o império da mesma Providência.
A existência dos anjos garante que o universo criado possui uma estrutura concentrada na qual a causalidade se distribui segundo graus, e onde a ação divina se exerce de modo imanente às próprias criaturas, sem jamais confundir-se com elas. É esta visão hierárquica do ser que protege simultaneamente a transcendência absoluta de Deus e a dignidade real das causas secundárias.
A história da teologia mostra que, sempre que a visão participativa do ser foi obscurecida, a doutrina angélica sofreu simultaneamente um processo de erosão.
Quando o universo deixa de ser pensado como um todo ordenado e passa a ser concebido como um agregado de fatos desconexos, os anjos tendem a desaparecer do horizonte intelectual, seja por serem reinterpretados como forças impessoais, seja por serem absorvidos em categorias psicológicas, seja por serem simplesmente silenciados como resíduos de uma cosmologia ultrapassada.
Esta eliminação, porém, não ocorre sem custo, pois ao perder os anjos perde-se também o sentido da mediação, da ordem e da continuidade entre o sensível e o espiritual, de modo que o próprio homem, perde algo de sua natureza, a saber, a compreensão de sua alma espiritual. A doutrina católica resistiu sempre a tais reduções, insistindo em manter unidos aquilo que a razão iluminada pela fé reconhece como inseparável, e os anjos pertencem ao plano salvífico como testemunhas permanentes de que o mundo criado é mais vasto do que aquilo que os sentidos alcançam, recordando ao homem que ele não é a medida última do real nem o vértice absoluto da Criação, mas também não é um ser abandonado num universo indiferente, pois está inserido numa ordem que o precede, o acompanha e o ultrapassa.

