Nascida em Siena, na Toscana italiana, aos 25 de março de 1347, Catarina Benincasa figura entre as almas mais extraordinárias que a Providência Divina suscitou para iluminar os caminhos da Igreja em tempos de grave tribulação.
Vigésima quarta filha dentre os vinte e cinco que vieram ao mundo do tintureiro Jacopo Benincasa e de Lapa di Puccio Piacenti, sua vida constitui uma história eloquente de como a Graça Divina pode transformar uma jovem sem instrução formal numa das mentes teológicas mais brilhantes de seu século, capaz de aconselhar papas e governantes, de mediar conflitos políticos e de deixar à posteridade escritos que lhe valeriam, séculos mais tarde, o título de Doutora da Igreja.
A vida de Santa Catarina, escrita por seu confessor, o Beato Raimundo de Cápua, revela uma alma inteiramente possuída pelo amor de Cristo e da Sua Esposa, a Santa Igreja.
Em um período em que o Papado se encontrava exilado em Avinhão, a Itália dilacerada por conflitos e a cristandade ameaçada por heresias e cismas, esta frágil mulher ergue-se como um farol de luz, consumindo-se em apenas trinta e três anos de vida terrena pelo bem das almas e pela glória de Deus.
A aurora da graça e o voto de virgindade

Desde a mais tenra infância, via-se pairar sobre aquela menina um alto desígnio da Providência. Aos seis anos de idade, voltando de um passeio com seu irmão Estêvão, Catarina teve uma visão, na qual viu Nosso Senhor Jesus Cristo revestido com paramentos pontificais, sentado num trono resplandecente no alto da igreja dos dominicanos.
Movida por esta experiência, a pequena Catarina consagrou sua virgindade a Cristo aos sete anos, diante de um altar da Santíssima Virgem Maria. Era uma criança alegre e piedosa, mas desde então seu coração pertencia inteiramente ao Senhor. A atuação do Espírito Santo em sua alma manifestava-se frequentemente através de fenômenos místicos que muitas vezes transpareciam no exterior; conta-se que, ainda menina, ao subir e descer as escadas da casa paterna, era por vezes transportada pelos ares, tocando os degraus apenas quando desejava pôr-se de joelhos para fazer atos de reverência e amor à Mãe de Deus.
A resistência familiar e a entrada na Ordem Dominicana
Quando a santa atingiu a idade em que, segundo os costumes da época, deveria preparar-se para o matrimônio, sua família empenhou-se em dissuadi-la de seu propósito de consagração. Ela, porém, resistiu com firmeza, e para selar definitivamente sua ruptura com as vaidades do mundo, cortou os cabelos em sinal de que, a partir de então, serviria apenas ao Senhor.
Diante de tal determinação, seu progenitor reconheceu que ela era guiada pelo Espírito Santo e ordenou à família que a deixasse cumprir em paz sua vocação. Assim, aos quinze ou dezesseis anos, Santa Catarina ingressou entre as “Irmãs da Penitência de Santo Domingo”, conhecidas como Mantellate, uma congregação de mulheres consagradas que viviam no mundo, dedicadas à oração, à penitência e às obras de caridade.
O desposório místico e a missão no mundo

Por volta de seus vinte anos, teve uma visão do seu desposório místico com Nosso Senhor Jesus Cristo. Numa aparição inesquecível, a Santíssima Virgem Maria apresentou-a a Seu Divino Filho, que lhe colocou no dedo um anel de ouro ornado com quatro pérolas e um diamante, dizendo-lhe:
"Eu, teu Criador e Salvador, desposo-te na fé, que conservarás sempre pura até que celebres comigo no céu tuas bodas eternas".
Pouco depois, em outra visão, Jesus, seu Esposo místico, encarregou-a de deixar a vida de reclusão e dedicar-se com todas as suas forças às obras de caridade e à conversão dos pecadores. A partir de então, Catarina passou a servir aos pobres e enfermos nos hospitais de Siena, atraindo em torno de si um círculo de discípulos que a chamavam com afeto e veneração de "mamã dulcíssima".
Ela se tornou uma voz profética, escrevendo centenas de cartas a papas, cardeais, bispos, soberanos e pessoas de todas as condições, exortando-os à conversão, à paz e à reforma dos costumes, com franqueza corajosa, não temendo apontar as faltas humanas do Vigário de Cristo nem lembrá-lo de suas graves responsabilidades.
Os últimos combates e a morte consumada pela Igreja

O retorno do Papa a Roma, porém, não pôs termo às tribulações da Igreja. Após a morte de Gregório XI em março de 1378, a eleição de seu sucessor Urbano VI desencadeou uma crise em que, cardeais franceses descontentes declararam inválida a eleição e escolheram um antipapa, dando início ao Grande Cisma do Ocidente, que dividiria a cristandade por quase quatro décadas. A santa, reconhecendo Urbano VI como legítimo Pontífice, foi chamada por ele a Roma, onde se estabeleceu no final de 1378 para lutar, com orações, exortações e cartas, pela unidade da Igreja.
Ali, consumida pelo ardor e pelas fadigas, a santa entregou sua vida pelo Corpo Místico de seu Amado Senhor. Nos primeiros meses de 1380, fortes dores físicas passaram a afligi-la continuamente, mas mesmo assim não cessavam suas experiências místicas nem seu zelo pela Igreja. Em 29 de abril de 1380, rodeada por seus discípulos, Santa Catarina de Siena expirou aos trinta e três anos de idade, a mesma idade de Cristo. Suas últimas palavras resumem toda a sua existência:
"Partindo-me do corpo, na verdade, consumei e dei a vida na Igreja e pela Igreja Santa, o que me é singularíssima graça".
O Papa Pio II canonizou-a em 1461. Em 1970, Paulo VI proclamou-a Doutora da Igreja, e em 1999, São João Paulo II declarou-a copadroeira da Europa. Seu corpo repousa na Basílica de Santa Maria sopra Minerva, em Roma, enquanto sua cabeça incorrupta é venerada na Basílica de São Domingos, em Siena. Aquela que outrora fora uma simples leiga analfabeta tornou-se uma das maiores luzes da Igreja, provando ao mundo que o amor de Deus é capaz de consumir e transformar inteiramente uma alma que a Ele se entrega sem reservas.




